[Este artigo do meu amigo Eduardo Martins foi publicado originalmente no jornal A Gazeta do Iguaçu - Coluna do Leitor - dia 31/05/2007]
Dia 31 de maio é o Dia Internacional de Combate ao Fumo. E nada melhor do que ouvir a opinião de quem mais entende do assunto no Brasil: o médico, certo? Errado!
O médico quando completa sua graduação, muitas vezes não atina para o grave problema do tabagismo na população em geral. Seja pela inexperiência, seja pelo fato de ter o vício: 1 em cada 4 médicos brasileiros é fumante. Esta falta de exemplarismo revela total desserviço ao fumante, órfão de exemplo na hora de receber assistência médica, inclusive de pneumologistas.
O fumante sabe que 4.700 substâncias tóxicas estão presentes no cigarro. Sabe também que o cigarro dá câncer, mata, e que sua fumaça mata os outros também. Um caso conhecido é o paciente que colocou cinco pontes de safena, sem história familiar, atleta, mas com uma esposa tabagista “invertebrada” como se diz nos bastidores hospitalares: 3 maços por dias. O pior do cigarro não é matar, é como ele mata: aos poucos, tirando funções vitais como a respiração, circulação, metabolismo, etc. Médicos convivem com enfisematosos em enfermarias e CTIs, e nem por isso conscientizam-se o suficiente para largar o vício. Ou seja, fatos não mudam hábitos!
O cigarro é pior que a cocaína e outras drogas ilícitas. Semelhante a um câncer indolente, muitas vezes seus males não são percebidos de imediato pelo paciente. Todo tabagista é uma pessoa doente que sofre de tabagismo, uma doença grave e fatal. A droga ilícita na maioria das vezes, destaca o drogado da sociedade, retira-o da profissão, e exige decisão rápida para mudar o rumo da vida, como um câncer agressivo que exige intervenção imediata. O tabagista vive na sociedade, é aceito e muitas vezes admirado como profissional de presente e futuro brilhante, e o que é pior, pode ser um modelo!
Recentemente, o protagonista do tabagismo no Brasil, presidente da maior companhia de tabaco do país, deu uma entrevista ignóbil a uma grande revista brasileira, com seu cigarro na boca, dizendo-se pai de três filhos e afirmando que fumar é um risco. Falar sem pensar é um risco. As respostas prontas do por que se fuma são ainda mais reveladoras do que o cigarro faz com a mente humana, e apenas demonstram que por trás dessas maquiagens empresariais estão toda sorte de hipocrisias tanatofílicas, maquiadoras dos malefícios do tabagismo.
Há 12 anos, a maior indústria americana de tabaco aumentava seu capital no Brasil não mais com cigarros, mas sorvete, um alimento. Pergunta-se: se você comer alimento estragado em um restaurante, passar mal, for para o CTI (diária de no mínimo R$ 2.500) quem vai pagar a conta? Um produto lhe fez mal, lhe trouxe uma doença grave, houve custos com remédios, equipe médica e hospital, e a culpa foi sua por ter escolhido aquele produto? A maioria dos tabagistas doentes de hoje foi iludida nas décadas de 60, 70 ou 80, quando não se sabia dos males do tabagismo. Hoje, a indústria do fumo deve pagar por isto.
Definitivamente, a convivência diária com o paciente tabagista é assustadora. É preciso ser franco: tudo o que se arrecada de impostos com o tabaco não paga as doenças que ele gera, até porque não há esse repasse direto. Em outras palavras, o cigarro gera um rombo no orçamento da saúde, pois a morte indolente é muito mais cara do que a rápida. Um paciente, recentemente, revelou que fumou por 40 anos 2 maços/dia. Ele não tem carro e vive de aluguel, mas baforou R$ 73.000, ou R$ 5 por dia, sem inflação nem juros! Numa vida de 4 décadas fumando, o que ele fumou não há dúvidas que lhe daria um carro e um teto na moeda de hoje! É um cardiopata crônico grave, enfisematoso, sofre de insuficiência vascular periférica e anda de ônibus!
Aos tabagistas, resta o discernimento. Vale mais parar de fumar cedo, apostando na própria saúde, do que deixar para depois e buscar brigas judiciais à beira do leito!
Eduardo Martins - Cardiologista do Hospital Prontocor – Especialização em Cleveland (Ohio, USA) – cardiologiaedu@terra.com.br